
Invasão de privacidade, manipulação de informações, acesso ao hábito de consumo, restrição a liberdade, câmeras de vigilância por toda a parte, países aliados que se transformam em inimigos e depois voltam a ser aliados, guerras sob a justificativa de garantir a paz.
Escrevo sobre o futuro? Sobre o presente? Não, o post de hoje é sobre um livro de ficção chamado "1984", escrito em 1948 pelo inglês George Orwell (pseudônimo de Eric Blair). Obra-prima considerada como uma das mais importantes do século XX.
É neste romance que conhecemos a figura do Big Brother (anos depois a Endemol iria popularizar o termo), como a representação maior do Estado. O símbolo do Estado que tudo vê.
No livro, o mundo está dividido em três grandes superestados que vivem em guerra permanente. Estes Estados são chamados de Eurásia, Lestásia e Oceania, sendo neste último o ambiente onde a história é contada. Este país é totalmente controlado pelo partido e a população é dividida em três classes sociais. Os membros do partido interno, que são a minoria e gozam de um padrão de vida diferenciado, os membros do partido externo, que trabalham para o governo em troca de um tratamento igualitário, mas muito penoso (racionamento de comida, energia, etc) e a prole, que vive na miséria e á margem da estrutura oficial do estado.
Na Oceania, as funções do governo são divididas por quatro ministérios. O Ministério da Fartura, responsável pelas atividades econômicas, o Ministério da Paz, responsável pelas guerras, o Ministério do Amor, responsável pela manutenção da lei e da ordem e o Ministério da Verdade, responsável pelas notícias, diversões, instruções e cultura.
Vemos também que o partido criou a novilíngua, um novo idioma que visa substituir o antigo, reduzindo significativamente o número de palavras disponíveis e eliminando qualquer palavra cujo significado possa exprimir uma opinião contrária ao regime. Por toda a parte, há imensos cartazes com os três lemas do partido: "GUERRA É PAZ" - "LIBERDADE É ESCRAVIDÃO" - "IGNORÃNCIA É FORÇA".
Conhecemos tudo isso na companhia do personagem principal do livro, Winston Smith, um funcionário público pertencente ao partido externo e que trabalha no Ministério da Verdade, na função de mudar os arquivos de acordo com as verdades do partido, tornando o passado compatível com o presente. Por exemplo, se a história conta que a Eurásia foi inimiga da Oceania no passado, estando os países em guerra por muitos anos, mas agora os dois são aliados em outra guerra contra a Lestásia, seu trabalho é trocar todos os arquivos com a informação de que a Eurásia sempre foi um estado amigo e parceiro.
Smith questiona seriamente este modelo, porém não sabe se seu pensamento é compartilhado por outros, já que a liberdade de expressão é proibida e qualquer ato que leve a mais simples suspeita de que a pessoa seja contra o governo acarreta em prisão e desaparecimento do cidadão (responsabilidade da polícia do pensamento). Para garantir esta situação, o Estado instalou as chamadas teletelas em todos os cômodos de todas as casas, assim com em todas repartições públicas e ruas. As teletelas vigiam as pessoas, captando a imagem e qualquer som emitido por elas. Além disso, as teletelas servem como tv para transmitir as mensagens do partido para a nação, que vão desde as novas leis e instruções em vigência até propagandas dos feitos do governo com números inflados que mostravam o sucesso do regime.
Winston Smith decide então escrever um diário, com papel comprado no mercado negro dos proles (porte de papel é crime) e escondido num canto de sua sala que por um erro na instalação da teletela, fica fora do campo de visão do governo. É através deste diário que acompanhamos a passagem de Smith da indiferença para a rebeldia e a decisão pelo confronto com o sistema estabelecido, contando com a ajuda de Julia, uma paixão proibida, mas igualmente inconformada.
Orwell (1903-1950) escreveu o livro como uma crítica ao regime comunista que estava em expansão á época, pois ele como em ex-socialista, não concordava com o modelo stalinista. Tal crítica é retratada de forma muito mais contundente em outro livro seu, o também clássico, "A Revolução dos Bichos", mas isso é assunto para outro post. O fato é que este futuro previsto por Orwell chegou e não está ligado somente a regimes comunistas.
Recomendo a leitura deste delicioso livro, que com uma narrativa que não é pesada, trata de um tema muito importante, que é nosso maior bem, a liberdade. Um assunto para refletirmos.
Para tentar traduzir um pouco isso, abaixo o trailer do filme de adaptação da obra, dirigido por Michael Radford. Não é um filme ruim e também vale a pena, mas o livro eu diria que é obrigatório.
Sandro