O mundo recebeu uma triste noticia. A nota oficial, escrita pela fundação que leva seu nome foi assim:
"Hoje, sexta-feira, 18 de junho, José Saramago faleceu às 12h30 horas [horário local] na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila",
Sua mulher, a jornalista Pilar del Río, relatou que ele passou mal após tomar o café da manhã, recebeu auxílio médico, mas não resistiu e morreu.
Na verdade, o fato em si não pode ser encarado como uma grande surpresa, pois era de conhecimento público que nos últimos anos sua saúde já andava meio debilitada (tinha problemas respiratórios, sofria de leucemia), além da idade avançada. Esta situação não o tirava da ativa, ainda no ano passado lançou "Caim" (leia o post sobre o livro aqui) e preparava outra obra, mas era crítica.
Claro que a comoção no meio das artes foi global. Afinal estamos falando de uma referência mundial, com fãs espalhados por todo o mundo e detentor do primeiro prêmio Nobel de Literatura dado para um autor da lingua portuguesa.
Mas Saramago não era uma unanimidade. Sofria muitas críticas, principalmente em seu país natal, muito pela forma contundente com que questionava as religiões e o capitalismo. O fato de ser ateu convicto e de não fugir deste tipo de debate, o expunha com frequencia a uma opinião pública que nem sempre gostava de ouvir sua dura e realista visão do mundo.
Quanto a série de manifestações de consternação que li durante todo o dia de hoje, fico na dúvida se estas ocorreram devido a admiração pela sua obra (o mais importante), pelo seu posicionamento politico e religioso ou por ser "cool" gostar de Saramago, mesmo sem nunca o ter lido.
Digo isto até pelo estilo singular empregado em seus romances. Não sei se vocês já tiveram a oportunidade de ler algo dele, mas posso garantir que de cara, não é um autor de fácil leitura. Os paragráfos enormes, o excesso de virgulas, a falta de indicações que identifiquem o início e o fim de cada diálogo (que podem ser facilmente confundidos com pensamentos dos personagens) e principalmente a ausência de pontuações eram marcas registradas em suas obras. Por isso, não duvido que muitos tenham se assustado e surpreendido com as primeiras páginas de algum livro seu.
Conheço gente que desistiu. O que semptre falei para estas pessoas, era que valia a pena insistir. Durante a leitura, o leitor se acostuma com esta forma peculiar de escrever e passa a descobrir o talento do escritor em contar histórias. Argumentos que partem de premissas estranhas, mas que prendem nossa atenção a ponto de nos fazer grudar em seus livros até o término. É difícil encontrar quem só tenha lido um livro seu, os que chegam até o final tendem a querer mais e mais.
Eu particularmente li apenas seis. "Memorial do Convento" (de 1982 e seu primeiro livro de sucesso), "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (de 1991 e sensacional), "Ensaio Sobre a Cegueira" (de 1995, meu preferido), "O Homem Duplicado" (de 2002), "As Intermitências da Morte" (de 2005, que é surreal) e "Caim" (de 2009). Recomendo todos e quero mais.
Enfim, José Saramago, nascido em Portugal no dia 16 de novembro de 1922, homem que também trabalhou no universo das letras sendo jornalista, poeta, argumentista e dramaturgo, morreu.
Se as coisas são como ele sempre pensou, simplesmente acabou. Mas se ele estava enganado e existir algo além da vida, ele deve ter ficado bastante surpreso...
O que resta é sua obra. Imortal e que merece ser ao menos "tentada". Afinal este homem foi certamente um dos maiores escritores do mundo contemporâneo.
Abaixo, deixei dois vídeos. O primeiro é meio longo (tem cerca de 8 minutos) e Saramago coloca alguns de seus pontos de vista sobre a humanidade.
O outro é a emocionante cena em que o cineasta Fernando Meirelles espera ansioso um comentário do escritor logo após a primeira exibição do filme "Ensaio Sobre a Cegueira", brilhantemente adaptado para o cinema por este excelente diretor brasileiro. É tão legal, que eu deixei até "invadir" um pouco o espaço da lateral do blog.
Fora estes, no post escrito pelo Anselmo sobre "Caim" que eu mencionei acima, também tem dois vídeos que valem a pena.
Sandro
minervapop
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sexta-feira, 18 de junho de 2010
LUTO - MORREU JOSÉ SARAMAGO
O mundo recebeu uma triste noticia. A nota oficial, escrita pela fundação que leva seu nome foi assim:
"Hoje, sexta-feira, 18 de junho, José Saramago faleceu às 12h30 horas [horário local] na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila",
Sua mulher, a jornalista Pilar del Río, relatou que ele passou mal após tomar o café da manhã, recebeu auxílio médico, mas não resistiu e morreu.
Na verdade, o fato em si não pode ser encarado como uma grande surpresa, pois era de conhecimento público que nos últimos anos sua saúde já andava meio debilitada (tinha problemas respiratórios, sofria de leucemia), além da idade avançada. Esta situação não o tirava da ativa, ainda no ano passado lançou "Caim" (leia o post sobre o livro aqui) e preparava outra obra, mas era crítica.
Claro que a comoção no meio das artes foi global. Afinal estamos falando de uma referência mundial, com fãs espalhados por todo o mundo e detentor do primeiro prêmio Nobel de Literatura dado para um autor da lingua portuguesa.
Mas Saramago não era uma unanimidade. Sofria muitas críticas, principalmente em seu país natal, muito pela forma contundente com que questionava as religiões e o capitalismo. O fato de ser ateu convicto e de não fugir deste tipo de debate, o expunha com frequencia a uma opinião pública que nem sempre gostava de ouvir sua dura e realista visão do mundo.
Quanto a série de manifestações de consternação que li durante todo o dia de hoje, fico na dúvida se estas ocorreram devido a admiração pela sua obra (o mais importante), pelo seu posicionamento politico e religioso ou por ser "cool" gostar de Saramago, mesmo sem nunca o ter lido.
Digo isto até pelo estilo singular empregado em seus romances. Não sei se vocês já tiveram a oportunidade de ler algo dele, mas posso garantir que de cara, não é um autor de fácil leitura. Os paragráfos enormes, o excesso de virgulas, a falta de indicações que identifiquem o início e o fim de cada diálogo (que podem ser facilmente confundidos com pensamentos dos personagens) e principalmente a ausência de pontuações eram marcas registradas em suas obras. Por isso, não duvido que muitos tenham se assustado e surpreendido com as primeiras páginas de algum livro seu.
Conheço gente que desistiu. O que semptre falei para estas pessoas, era que valia a pena insistir. Durante a leitura, o leitor se acostuma com esta forma peculiar de escrever e passa a descobrir o talento do escritor em contar histórias. Argumentos que partem de premissas estranhas, mas que prendem nossa atenção a ponto de nos fazer grudar em seus livros até o término. É difícil encontrar quem só tenha lido um livro seu, os que chegam até o final tendem a querer mais e mais.
Eu particularmente li apenas seis. "Memorial do Convento" (de 1982 e seu primeiro livro de sucesso), "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (de 1991 e sensacional), "Ensaio Sobre a Cegueira" (de 1995, meu preferido), "O Homem Duplicado" (de 2002), "As Intermitências da Morte" (de 2005, que é surreal) e "Caim" (de 2009). Recomendo todos e quero mais.
Enfim, José Saramago, nascido em Portugal no dia 16 de novembro de 1922, homem que também trabalhou no universo das letras sendo jornalista, poeta, argumentista e dramaturgo, morreu.
Se as coisas são como ele sempre pensou, simplesmente acabou. Mas se ele estava enganado e existir algo além da vida, ele deve ter ficado bastante surpreso...
O que resta é sua obra. Imortal e que merece ser ao menos "tentada". Afinal este homem foi certamente um dos maiores escritores do mundo contemporâneo.
Abaixo, deixei dois vídeos. O primeiro é meio longo (tem cerca de 8 minutos) e Saramago coloca alguns de seus pontos de vista sobre a humanidade.
O outro é a emocionante cena em que o cineasta Fernando Meirelles espera ansioso um comentário do escritor logo após a primeira exibição do filme "Ensaio Sobre a Cegueira", brilhantemente adaptado para o cinema por este excelente diretor brasileiro. É tão legal, que eu deixei até "invadir" um pouco o espaço da lateral do blog.
Fora estes, no post escrito pelo Anselmo sobre "Caim" que eu mencionei acima, também tem dois vídeos que valem a pena.
Sandro
"Hoje, sexta-feira, 18 de junho, José Saramago faleceu às 12h30 horas [horário local] na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila",
Sua mulher, a jornalista Pilar del Río, relatou que ele passou mal após tomar o café da manhã, recebeu auxílio médico, mas não resistiu e morreu.
Na verdade, o fato em si não pode ser encarado como uma grande surpresa, pois era de conhecimento público que nos últimos anos sua saúde já andava meio debilitada (tinha problemas respiratórios, sofria de leucemia), além da idade avançada. Esta situação não o tirava da ativa, ainda no ano passado lançou "Caim" (leia o post sobre o livro aqui) e preparava outra obra, mas era crítica.
Claro que a comoção no meio das artes foi global. Afinal estamos falando de uma referência mundial, com fãs espalhados por todo o mundo e detentor do primeiro prêmio Nobel de Literatura dado para um autor da lingua portuguesa.
Mas Saramago não era uma unanimidade. Sofria muitas críticas, principalmente em seu país natal, muito pela forma contundente com que questionava as religiões e o capitalismo. O fato de ser ateu convicto e de não fugir deste tipo de debate, o expunha com frequencia a uma opinião pública que nem sempre gostava de ouvir sua dura e realista visão do mundo.
Quanto a série de manifestações de consternação que li durante todo o dia de hoje, fico na dúvida se estas ocorreram devido a admiração pela sua obra (o mais importante), pelo seu posicionamento politico e religioso ou por ser "cool" gostar de Saramago, mesmo sem nunca o ter lido.
Digo isto até pelo estilo singular empregado em seus romances. Não sei se vocês já tiveram a oportunidade de ler algo dele, mas posso garantir que de cara, não é um autor de fácil leitura. Os paragráfos enormes, o excesso de virgulas, a falta de indicações que identifiquem o início e o fim de cada diálogo (que podem ser facilmente confundidos com pensamentos dos personagens) e principalmente a ausência de pontuações eram marcas registradas em suas obras. Por isso, não duvido que muitos tenham se assustado e surpreendido com as primeiras páginas de algum livro seu.
Conheço gente que desistiu. O que semptre falei para estas pessoas, era que valia a pena insistir. Durante a leitura, o leitor se acostuma com esta forma peculiar de escrever e passa a descobrir o talento do escritor em contar histórias. Argumentos que partem de premissas estranhas, mas que prendem nossa atenção a ponto de nos fazer grudar em seus livros até o término. É difícil encontrar quem só tenha lido um livro seu, os que chegam até o final tendem a querer mais e mais.
Eu particularmente li apenas seis. "Memorial do Convento" (de 1982 e seu primeiro livro de sucesso), "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (de 1991 e sensacional), "Ensaio Sobre a Cegueira" (de 1995, meu preferido), "O Homem Duplicado" (de 2002), "As Intermitências da Morte" (de 2005, que é surreal) e "Caim" (de 2009). Recomendo todos e quero mais.
Enfim, José Saramago, nascido em Portugal no dia 16 de novembro de 1922, homem que também trabalhou no universo das letras sendo jornalista, poeta, argumentista e dramaturgo, morreu.
Se as coisas são como ele sempre pensou, simplesmente acabou. Mas se ele estava enganado e existir algo além da vida, ele deve ter ficado bastante surpreso...
O que resta é sua obra. Imortal e que merece ser ao menos "tentada". Afinal este homem foi certamente um dos maiores escritores do mundo contemporâneo.
Abaixo, deixei dois vídeos. O primeiro é meio longo (tem cerca de 8 minutos) e Saramago coloca alguns de seus pontos de vista sobre a humanidade.
O outro é a emocionante cena em que o cineasta Fernando Meirelles espera ansioso um comentário do escritor logo após a primeira exibição do filme "Ensaio Sobre a Cegueira", brilhantemente adaptado para o cinema por este excelente diretor brasileiro. É tão legal, que eu deixei até "invadir" um pouco o espaço da lateral do blog.
Fora estes, no post escrito pelo Anselmo sobre "Caim" que eu mencionei acima, também tem dois vídeos que valem a pena.
Sandro
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
CAIM - CONTROVERSO E HILÁRIO

Acabei de ler o novo livro de Jose Saramago, Caim, lançado no Brasil pela Companhia Das Letras.
A história gira em torno de críticas á figura de “deus”, que no conceito do autor “o homem criou a sua própria imagem e semelhança”, sendo esse um personagem cruel, desumano, egoísta e orgulhoso.
O personagem Caim é a voz do questionamento, não aceitando cegamente aos mandos do criador. Atua de forma desafiadora e hilária nas vidas de Abraão, Isaac, Josué, Noé, os quais encontra numa viagem no tempo. Em resumo, Saramago consegue conduzir Caim em um texto, apesar de controverso, extremamente engraçado e duramente crítico não ao criador, mas sim a criatura, no caso a humanidade.
Muitos estão indignados com a mensagem do livro, eu particularmente me sinto mais incomodado com suas declarações críticas referentes a blogs, onde diz que “com o crescimento desse tipo de espaço na internet está se escrevendo mais, embora pior", ou sua amizade com Caetano Veloso. Mas como ele mesmo afirma “não escrevo para agradar ou desagradar, eu escrevo para desassossegar”.
O livro termina de forma abrupta, como se não houvesse nada mais para contar. Talvez seja porque Saramago já esteja focado em seu novo romance sobre a indústria de armas, onde a vida também não tem nenhuma importância.
Eu gostei e recomendo, pois é apenas um livro, e deve ser tratado como tal.
Anselmo
CAIM - CONTROVERSO E HILÁRIO

Acabei de ler o novo livro de Jose Saramago, Caim, lançado no Brasil pela Companhia Das Letras.
A história gira em torno de críticas á figura de “deus”, que no conceito do autor “o homem criou a sua própria imagem e semelhança”, sendo esse um personagem cruel, desumano, egoísta e orgulhoso.
O personagem Caim é a voz do questionamento, não aceitando cegamente aos mandos do criador. Atua de forma desafiadora e hilária nas vidas de Abraão, Isaac, Josué, Noé, os quais encontra numa viagem no tempo. Em resumo, Saramago consegue conduzir Caim em um texto, apesar de controverso, extremamente engraçado e duramente crítico não ao criador, mas sim a criatura, no caso a humanidade.
Muitos estão indignados com a mensagem do livro, eu particularmente me sinto mais incomodado com suas declarações críticas referentes a blogs, onde diz que “com o crescimento desse tipo de espaço na internet está se escrevendo mais, embora pior", ou sua amizade com Caetano Veloso. Mas como ele mesmo afirma “não escrevo para agradar ou desagradar, eu escrevo para desassossegar”.
O livro termina de forma abrupta, como se não houvesse nada mais para contar. Talvez seja porque Saramago já esteja focado em seu novo romance sobre a indústria de armas, onde a vida também não tem nenhuma importância.
Eu gostei e recomendo, pois é apenas um livro, e deve ser tratado como tal.
Anselmo
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