minervapop

terça-feira, 1 de junho de 2010

BAUDELAIRE E "AS FLORES DO MAL" - O poeta do tormento humano

Hoje vou escrever sobre poesia, assunto do qual não sou um grande especialista ou estudioso, mas apenas um admirador.

O Anselmo foi o autor do único post (leia aqui) sobre o tema aqui no blog, onde ele abordava a poesia expressionista alemã.

Na minha estréia nesta área, vou direto ao meu poeta preferido, e sua grande obra-prima. Falo do francês Charles Baudelaire e seu livro publicado em 1857 chamado "As Flores do Mal".

Este lançamento aliás, é tido como o grande marco do Simbolismo, importante movimento literário e artístico do século 19. Autores franceses fundamentais como Arthur Rimbaud, Paul Verlaine (gosto de ambos) e Stephane Mallarmé (conheço pouco) foram reconhecidamente influenciados por este livro. Outros gênios como Balzac, Flaubert e Victor Hugo também eram admiradores declarados de Baudelaire.

Mas ele teve sérios problemas quando do lançamento de "As Flores do Mal", chegando a ser processado por obscenidade e blasfêmia e tendo que retirar 6 poemas (incluídos posteriormente no livro "Marginália de 1866) da publicação original. É uma pena que Baudelaire não tenha gozado plenamente do prestígio e reconhecimento merecido em vida, pois apesar de ter aproveitado de forma intensa as noites de Paris (gastou tudo o que tinha com bebidas, drogas, mulheres e no jogo), sua verdadeira relevância para a poesia moderna só virou unanimidade já no século 20, anos após sua morte com 46 anos de idade em 31 de agosto de 1867.

Sobre a obra em si, não há como detalhar, devido a complexidade do que se encontra nestas preciosas páginas. Poderia resumir como, melancólico, sombrio, ríspido. Definitivamente não é o tipo de leitura recomendada para elevar o astral de ninguém. Pelo contrário, tem o efeito de nos levar para um universo particular de idéias não convencionais mas por vezes muito próximas.

O certo é que vale muito a pena conhecer o poeta maldito, o poeta da dor. Como bem descreve a apresentação da editora Nova Fronteira traduzida por Ivan Junqueira na edição de 1985 (é a que tenho), "A poesia de Baudelaire é a consumação verbal do indizível".

Abaixo, deixo o poema que abre "As Flores do Mal". Chama-se "Ao Leitor", cujo último verso ao chamar o leitor de hipócrita, completa com "meu igual, meu irmão!" e dá uma amostra do que vem pela frente.
Somente como outra amostra, na sequencia deixo "Spleen II".


Ao Leitor
A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trimegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade então se evola
Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o Diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feios, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!


Spleen
Eu tenho mais recordações do que há em mil anos.

Uma cômoda imensa atulhada de planos,
Versos, cartas de amor, romances, escrituras,
Com grossos cachos de cabelo entre as faturas,
Guarda menos segredos que o meu coração.
É uma pirâmide, um fantástico porão,
E Jazigo não há que mais mortos possua.
- Eu sou um cemitério odiado pela lua,
Onde, como remorsos, vermes atrevidos
Andam sempre a irritar meus mortos mais queridos.
Sou como um camarim onde há rosas fanadas,
Em meio a um turbilhão de modas já passadas,
Onde os tristes pastéis de um Boucher (pintor francês) desbotado
Ainda aspiram o odor de um frasco destampado.

Nada iguala o arrastar-se dos trôpegos dias,
Quando, sob o rigor das brancas invernias,
O tédio, taciturno exílio da vontade,
Assume as proporcções da própria eternidade.
- Doravante hás de ser, ó pobre e humano escombro!
Um granito por onbdas de assombro
A dormir nos confins de um Saara brumoso:
Uma esfinge que o mundo ignora, descuidoso,
Esquecida no mapa, e cujo ápero humor
Canta apenas aos raios do sol a se por.


Sandro

BAUDELAIRE E "AS FLORES DO MAL" - O poeta do tormento humano

Hoje vou escrever sobre poesia, assunto do qual não sou um grande especialista ou estudioso, mas apenas um admirador.

O Anselmo foi o autor do único post (leia aqui) sobre o tema aqui no blog, onde ele abordava a poesia expressionista alemã.

Na minha estréia nesta área, vou direto ao meu poeta preferido, e sua grande obra-prima. Falo do francês Charles Baudelaire e seu livro publicado em 1857 chamado "As Flores do Mal".

Este lançamento aliás, é tido como o grande marco do Simbolismo, importante movimento literário e artístico do século 19. Autores franceses fundamentais como Arthur Rimbaud, Paul Verlaine (gosto de ambos) e Stephane Mallarmé (conheço pouco) foram reconhecidamente influenciados por este livro. Outros gênios como Balzac, Flaubert e Victor Hugo também eram admiradores declarados de Baudelaire.

Mas ele teve sérios problemas quando do lançamento de "As Flores do Mal", chegando a ser processado por obscenidade e blasfêmia e tendo que retirar 6 poemas (incluídos posteriormente no livro "Marginália de 1866) da publicação original. É uma pena que Baudelaire não tenha gozado plenamente do prestígio e reconhecimento merecido em vida, pois apesar de ter aproveitado de forma intensa as noites de Paris (gastou tudo o que tinha com bebidas, drogas, mulheres e no jogo), sua verdadeira relevância para a poesia moderna só virou unanimidade já no século 20, anos após sua morte com 46 anos de idade em 31 de agosto de 1867.

Sobre a obra em si, não há como detalhar, devido a complexidade do que se encontra nestas preciosas páginas. Poderia resumir como, melancólico, sombrio, ríspido. Definitivamente não é o tipo de leitura recomendada para elevar o astral de ninguém. Pelo contrário, tem o efeito de nos levar para um universo particular de idéias não convencionais mas por vezes muito próximas.

O certo é que vale muito a pena conhecer o poeta maldito, o poeta da dor. Como bem descreve a apresentação da editora Nova Fronteira traduzida por Ivan Junqueira na edição de 1985 (é a que tenho), "A poesia de Baudelaire é a consumação verbal do indizível".

Abaixo, deixo o poema que abre "As Flores do Mal". Chama-se "Ao Leitor", cujo último verso ao chamar o leitor de hipócrita, completa com "meu igual, meu irmão!" e dá uma amostra do que vem pela frente.
Somente como outra amostra, na sequencia deixo "Spleen II".


Ao Leitor
A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trimegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade então se evola
Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o Diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feios, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!


Spleen
Eu tenho mais recordações do que há em mil anos.

Uma cômoda imensa atulhada de planos,
Versos, cartas de amor, romances, escrituras,
Com grossos cachos de cabelo entre as faturas,
Guarda menos segredos que o meu coração.
É uma pirâmide, um fantástico porão,
E Jazigo não há que mais mortos possua.
- Eu sou um cemitério odiado pela lua,
Onde, como remorsos, vermes atrevidos
Andam sempre a irritar meus mortos mais queridos.
Sou como um camarim onde há rosas fanadas,
Em meio a um turbilhão de modas já passadas,
Onde os tristes pastéis de um Boucher (pintor francês) desbotado
Ainda aspiram o odor de um frasco destampado.

Nada iguala o arrastar-se dos trôpegos dias,
Quando, sob o rigor das brancas invernias,
O tédio, taciturno exílio da vontade,
Assume as proporcções da própria eternidade.
- Doravante hás de ser, ó pobre e humano escombro!
Um granito por onbdas de assombro
A dormir nos confins de um Saara brumoso:
Uma esfinge que o mundo ignora, descuidoso,
Esquecida no mapa, e cujo ápero humor
Canta apenas aos raios do sol a se por.


Sandro

domingo, 30 de maio de 2010

VIDEOS DA SEMANA - Stone Temple Pilots

1)Stone Temple Pilots - "Between The Lines" - Após 6 anos de silêncio , essa banda de Rock´n´Roll americana lança um ótimo álbum de inéditas.



2)Mike Patton - "Dio Come Ti Amo" - O vocalista do Faith No More, Mr. Bungle, Fantômas, atacando de "crooner" italiano com seu trabalho Mondo Cane.



3)Jeff Beck - "Somewhere Over the Rainbow" - O último disco desse grande guitarrista, Emotion & Commotion,  tem homenagens a Jeff Buckley, Screamin´Jay Hawkins, e Puccini.



4) Goldfrapp - "Rocket" - Single do novo trabalho Head First.



5) Aerosmith - "Chip Away The Stone" - Os caras tocaram no sábado em São Paulo. Não sei porque quase nunca tocam esse som em seus shows.



VIDEOS DA SEMANA - Stone Temple Pilots

1)Stone Temple Pilots - "Between The Lines" - Após 6 anos de silêncio , essa banda de Rock´n´Roll americana lança um ótimo álbum de inéditas.



2)Mike Patton - "Dio Come Ti Amo" - O vocalista do Faith No More, Mr. Bungle, Fantômas, atacando de "crooner" italiano com seu trabalho Mondo Cane.



3)Jeff Beck - "Somewhere Over the Rainbow" - O último disco desse grande guitarrista, Emotion & Commotion,  tem homenagens a Jeff Buckley, Screamin´Jay Hawkins, e Puccini.



4) Goldfrapp - "Rocket" - Single do novo trabalho Head First.



5) Aerosmith - "Chip Away The Stone" - Os caras tocaram no sábado em São Paulo. Não sei porque quase nunca tocam esse som em seus shows.



sábado, 29 de maio de 2010

THE CLASH - DIA DA LISTA


O nosso “dia da lista” de hoje é composto por canções de uma das bandas de Rock´n´Roll mais legais que já apareceram nesse pequeno globo terrestre. Formada em 1976 pelos integrantes Joe Strummer (vocalista principal, guitarra rítmica), Mick Jones (guitarra principal, vocais), Paul Simonon (baixo, backing vocals), o The Clash foi responsável por um dos melhores álbuns dos anos 80: “London Calling”.


Com certeza esses artistas terão um post específico sobre seus trabalhos aqui no Minerva Pop, porém hoje seguem nossas músicas preferidas (se é que alguma possa ficar de fora) , conforme abaixo:

Anselmo:

1. Tommy Gun
2. Complete Control
3. London´s Burning
4. White Riot
5. London Calling
6. Police On My Back
7. Should I Stay or Should I Go
8. Know your rights
9. STRAIGHT TO HELL
10. Death or Glory


Sandro:

1. London Calling
2. Safe European Home
3. (White Man) in Hammersmith Palais
4. Clash City Rockers
5. Should I Stay or Should I Go
6. I Fought the Law
7. Train in Vain (Stand by me)
8. English Civil War
9. White Riot
10. The Magnificient Seven









THE CLASH - DIA DA LISTA


O nosso “dia da lista” de hoje é composto por canções de uma das bandas de Rock´n´Roll mais legais que já apareceram nesse pequeno globo terrestre. Formada em 1976 pelos integrantes Joe Strummer (vocalista principal, guitarra rítmica), Mick Jones (guitarra principal, vocais), Paul Simonon (baixo, backing vocals), o The Clash foi responsável por um dos melhores álbuns dos anos 80: “London Calling”.


Com certeza esses artistas terão um post específico sobre seus trabalhos aqui no Minerva Pop, porém hoje seguem nossas músicas preferidas (se é que alguma possa ficar de fora) , conforme abaixo:

Anselmo:

1. Tommy Gun
2. Complete Control
3. London´s Burning
4. White Riot
5. London Calling
6. Police On My Back
7. Should I Stay or Should I Go
8. Know your rights
9. STRAIGHT TO HELL
10. Death or Glory


Sandro:

1. London Calling
2. Safe European Home
3. (White Man) in Hammersmith Palais
4. Clash City Rockers
5. Should I Stay or Should I Go
6. I Fought the Law
7. Train in Vain (Stand by me)
8. English Civil War
9. White Riot
10. The Magnificient Seven









quinta-feira, 27 de maio de 2010

LOST

Durante os anos 90, confesso que eu achava meio estranho a fissura que um amigo tinha pelo finado seriado Arquivo X. Eu não entendia seu vício pela história e personagens, apesar de gostar e assistir muitos episódios. Eu nunca na verdade fui um fanatico por séries de TV. Gostei e assisti várias, mas sem grande emplogação. Até que um dia isso mudou.

Era o ano de 2005 e eu li no jornal Folha de São Paulo uma coluna assinada pelo jornalista e expert em cultura pop Lúcio Ribeiro onde ele recomendava expressamente uma nova série que iria começar a ser exibida no canal AXN. Lúcio falava de Lost e escrevia sobre o impacto que o seriado vinha causando nos EUA desde sua estréia, no último trimestre de 2004. Me lembro da forma empolgada como ele narrou o primeiro episódio, descrevendo a dramática queda do avião. Além de respeitar o trabalho do cara, o texto e a temática da série despertaram meu interesse de imediato.

Não me lembro se esta coluna foi escrita numa sexta ou num domingo, só sei que na segunda a brincadeira começou. E eu estava lá. Confiando na informação, testemunhei a estréia aqui no Brasil do melhor seriado de TV de todos os tempos, disparado. Me impressionei desde este início e eu sempre soube que se tratava de algo que seria especial, pelo menos para mim.

Naquele ano assisti a todos episódios de forma solitária, pois não conhecia ninguem que acompanhasse a saga dos sobreviventes do Oceanic 815. Ficava sozinho, pensando e me deliciando com as revelações que apereciam a cada flaskback que mostrava a vida dos personagens pré-queda do avião, além é claro dos misteriosos acontecimentos que rolavam na ilha paralelamente.

Ao término da primeira temporada, meio que precisando conversar com alguém sobre este assunto, eu falava e elogiava Lost para meus amigos sem parar. Convenci então alguns a assistirem via DVD esta temporada. E o fenômeno era instantâneo. Todos que assistiam viciavam e passavam a aguardar, assim como eu, o início da segunda temporada. Mesmo porque o final da primeira era de bárbaro e abria possibilidades impensadas até aquele momento.

Veio a segunda e uma sensação de anti-climax chegou junto. A história começou a ser abordada por outro ângulo de visão, mostrando novos personagens e quebrando aquela sequencia de revelações que era esperada. Eu descobriria mais tarde que este tipo de ritmo seria uma constante no decorrer dos anos e que de forma impressionante, isso jamais diminiu meu interesse pela história. Pelo contrário, tudo que surgia de novo era contado de forma envolvente e com o mesmo clima de mistério que permeou toda a obra.

O final da segunda temporada também foi chocante e me deixou boquiaberto. Sem saber o que pensar. A coisa boa era que agora eu tinha com quem comentar e expor teorias que nos próximos anos sempre iam caindo por terra.

Percebi que cada vez mais pessoas comentavam sobre Lost e conheci gente que assistiu de sopetão via DVD a primeira e segunda temporada, com a consequente ansiedade pela terceira parte da saga. Casado, ganhei uma companhia dentro de casa, que ficava tão impressionada quanto eu ao fim de cada episódio.

Já durante a terceira temporada, com a febre em volta do seriado a mil, foi ficando mais comum a obtenção de DVDs piratas que continham os episódios ainda não exibidos no Brasil ( a defasagem era de 1 a 2 meses), além de arquivos eletrônicos com os vídeos extraídos do site da ABC (emissora dos EUA) devidamente legendados> Também era possível assistir direto neste site, sem as legendas.

Este hábito de conhecer os episódios antes da exibição na AXN foi ficando cada vez mais comum e na quarta temporada, praticamente todos os viciados em Lost usavam deste expediente. Nunca fiz isso. Sério. Nunca. Claro que a curiosidade era grande, mas eu preferi cultivar meu ritual de parar todas as segundas-feiras (foram 5 anos sem marcar compromissos neste dia) em frente a TV e degustar aquela 1 hora, mesmo tendo que aguentar os sempre chatos e repetitivos comerciais da AXN.

Não me curvei as facilidades cada vez maiores em se obter um episódio com antecedência, resisti e permaneci com este ritual (alterado para as terças agora em 2010) até anteontem, quando assisti ao último episódio da sexta temporada, sabidamente a que encerrou o seriado.

Fiquei longe da internet desde o último domingo, dia do final nos EUA, pois não queria saber nada, absolutamente nada a respeito antes da hora. Ao contrário da maioria, era como se eu não desejasse este fim, que me deixava nostálgico antes mesmo de chegar.

E agora que chegou o final, o que dizer? Não li muita coisa a respeito de "The End", o título deste último episódio transmitido durante 2,5 horas (100 minutos fora os intervalos). Não sei se a maioria dos fãs gostou ou não. Discuti o que vi apenas com minha esposa e algumas amigas do trabalho, porém ainda sem o distanciamento mínimo que permitisse a volta do meu poder de análise mais profundo, visto que entrei num estado de catarse após o encerramento da trama, que durou intensamente por pelo menos 24 horas.

Também não sei se Lost mudou a história dos seriados para sempre e nem se Lost foi a mais revolucionária série já produzida, como muitos disseram.

O que sei, é que este seriado me marcou demais. Sei que criei uma espécie de dependência que não consigo explicar. Sinto uma sensação de perda irreparável neste universo da cultura pop. Como acompanhar outra série? Haverá alguma outra coisa que me imponha de forma arrebatadora esta deliciosa escravidão vivida nestes últimos 6 anos? Tenho certeza que não. O vazio ficará.

Agora falando sobre o final em si, eu gostei. Achei digno da qualidade desenvolvida no decorrer das temporadas e o destino dado aos personagens muito bonito. Chorei nas cenas em que eles descobriam quem realmente eram, especialmente na da Kate com a Claire mais o Charlie e na do Sawyer com a Juliet, além do Locke no hospital. A cena do diálogo do Jack com seu pai, então nem se fala. Juro que enquanto escrevo este paragrafo, estou arrepiado só de lembrar.

Me marcou também a recusa do Ben em entrar na igreja, certamente motivada pelo fato de sua filha ainda não ter recebido a revelação e estar intimamente ligada a ele naquele contexto. O gesto do Desmond em não forçar uma revelação ao Daniel Faraday, mesmo este dando indícios de que estaria preparado, deixando-o com a mãe que o matou na vida real, foi demais tamnbém. Outra, a frase do Desmond para o Hurley explicando que a Ana Lucia não iria com eles porque ainda não estava pronta, tem uma relação direta com a mensagem final.

O bacana é que a história pendeu para um desfecho de forte apelo religioso (notei que no vitral da igreja havia símbolos de diversas religiões), porém muito convincente. Acho que mesmo aqueles que não acreditam que exista alguma coisa depois da morte, no fundo torcem para que estejam errados e que no final, nós possamos nos deparar com um lugar para seguir em frente ou "move on", como bem disse o pai do Jack. A idéia de que o que pensávamos ser uma realidade paralela, significar na verdade uma espécie de purgatório, ou simplesmente uma lugar de transição para a luz me agradou bastante.

É óbvio que faltaram respostas. E eu confesso que até esperei que elas viessem durante a sexta temporada, porém acho que ficou claro que não seriam desvendados todos os mistérios na medida que a cada episódio, novos elementos iam sendo inseridos na trama. Penso que as principais questões foram abordadas, principalmente com relação ao Jacob.

Li uma entrevista dos produtores executivos onde eles disseram que o foco seria mais dar um destino para cada personagem do que a resolução de cada detalhe misterioso. Fez sentido.

Mas é claro que eu gostaria de saber pelo menos quatro coisas. Por quanto tempo mais o Hurley ficou na ilha ("foi um grande líder", disse o Ben)? Se o Desmond conseguiu sair e como foi. Se o avião que decolou da ilha ainda continha dinamite e explodiu no ar. E qual foi o destino do Richard (um dos meus personagens favoritos)?
Acho que há muito material para ser explorado e consequentemente muito dinheiro a ser ganho, caso os produtores desejem. Cabe fácil, mais de um filme longa-metragem para os cinemas, abordando e desenvolvendo lados não explicados.

Para finalizar, quero só reafirmar. Lost marcou minha vida de amante da cultura pop e ficará marcada para sempre como a melhor experiência que tive com programas de televisão em minha vida. Simplesmente insuperável.

Abaixo a última cena. Bela, belíssima. Pode chorar junto comigo... 

Sandro

LOST

Durante os anos 90, confesso que eu achava meio estranho a fissura que um amigo tinha pelo finado seriado Arquivo X. Eu não entendia seu vício pela história e personagens, apesar de gostar e assistir muitos episódios. Eu nunca na verdade fui um fanatico por séries de TV. Gostei e assisti várias, mas sem grande emplogação. Até que um dia isso mudou.

Era o ano de 2005 e eu li no jornal Folha de São Paulo uma coluna assinada pelo jornalista e expert em cultura pop Lúcio Ribeiro onde ele recomendava expressamente uma nova série que iria começar a ser exibida no canal AXN. Lúcio falava de Lost e escrevia sobre o impacto que o seriado vinha causando nos EUA desde sua estréia, no último trimestre de 2004. Me lembro da forma empolgada como ele narrou o primeiro episódio, descrevendo a dramática queda do avião. Além de respeitar o trabalho do cara, o texto e a temática da série despertaram meu interesse de imediato.

Não me lembro se esta coluna foi escrita numa sexta ou num domingo, só sei que na segunda a brincadeira começou. E eu estava lá. Confiando na informação, testemunhei a estréia aqui no Brasil do melhor seriado de TV de todos os tempos, disparado. Me impressionei desde este início e eu sempre soube que se tratava de algo que seria especial, pelo menos para mim.

Naquele ano assisti a todos episódios de forma solitária, pois não conhecia ninguem que acompanhasse a saga dos sobreviventes do Oceanic 815. Ficava sozinho, pensando e me deliciando com as revelações que apereciam a cada flaskback que mostrava a vida dos personagens pré-queda do avião, além é claro dos misteriosos acontecimentos que rolavam na ilha paralelamente.

Ao término da primeira temporada, meio que precisando conversar com alguém sobre este assunto, eu falava e elogiava Lost para meus amigos sem parar. Convenci então alguns a assistirem via DVD esta temporada. E o fenômeno era instantâneo. Todos que assistiam viciavam e passavam a aguardar, assim como eu, o início da segunda temporada. Mesmo porque o final da primeira era de bárbaro e abria possibilidades impensadas até aquele momento.

Veio a segunda e uma sensação de anti-climax chegou junto. A história começou a ser abordada por outro ângulo de visão, mostrando novos personagens e quebrando aquela sequencia de revelações que era esperada. Eu descobriria mais tarde que este tipo de ritmo seria uma constante no decorrer dos anos e que de forma impressionante, isso jamais diminiu meu interesse pela história. Pelo contrário, tudo que surgia de novo era contado de forma envolvente e com o mesmo clima de mistério que permeou toda a obra.

O final da segunda temporada também foi chocante e me deixou boquiaberto. Sem saber o que pensar. A coisa boa era que agora eu tinha com quem comentar e expor teorias que nos próximos anos sempre iam caindo por terra.

Percebi que cada vez mais pessoas comentavam sobre Lost e conheci gente que assistiu de sopetão via DVD a primeira e segunda temporada, com a consequente ansiedade pela terceira parte da saga. Casado, ganhei uma companhia dentro de casa, que ficava tão impressionada quanto eu ao fim de cada episódio.

Já durante a terceira temporada, com a febre em volta do seriado a mil, foi ficando mais comum a obtenção de DVDs piratas que continham os episódios ainda não exibidos no Brasil ( a defasagem era de 1 a 2 meses), além de arquivos eletrônicos com os vídeos extraídos do site da ABC (emissora dos EUA) devidamente legendados> Também era possível assistir direto neste site, sem as legendas.

Este hábito de conhecer os episódios antes da exibição na AXN foi ficando cada vez mais comum e na quarta temporada, praticamente todos os viciados em Lost usavam deste expediente. Nunca fiz isso. Sério. Nunca. Claro que a curiosidade era grande, mas eu preferi cultivar meu ritual de parar todas as segundas-feiras (foram 5 anos sem marcar compromissos neste dia) em frente a TV e degustar aquela 1 hora, mesmo tendo que aguentar os sempre chatos e repetitivos comerciais da AXN.

Não me curvei as facilidades cada vez maiores em se obter um episódio com antecedência, resisti e permaneci com este ritual (alterado para as terças agora em 2010) até anteontem, quando assisti ao último episódio da sexta temporada, sabidamente a que encerrou o seriado.

Fiquei longe da internet desde o último domingo, dia do final nos EUA, pois não queria saber nada, absolutamente nada a respeito antes da hora. Ao contrário da maioria, era como se eu não desejasse este fim, que me deixava nostálgico antes mesmo de chegar.

E agora que chegou o final, o que dizer? Não li muita coisa a respeito de "The End", o título deste último episódio transmitido durante 2,5 horas (100 minutos fora os intervalos). Não sei se a maioria dos fãs gostou ou não. Discuti o que vi apenas com minha esposa e algumas amigas do trabalho, porém ainda sem o distanciamento mínimo que permitisse a volta do meu poder de análise mais profundo, visto que entrei num estado de catarse após o encerramento da trama, que durou intensamente por pelo menos 24 horas.

Também não sei se Lost mudou a história dos seriados para sempre e nem se Lost foi a mais revolucionária série já produzida, como muitos disseram.

O que sei, é que este seriado me marcou demais. Sei que criei uma espécie de dependência que não consigo explicar. Sinto uma sensação de perda irreparável neste universo da cultura pop. Como acompanhar outra série? Haverá alguma outra coisa que me imponha de forma arrebatadora esta deliciosa escravidão vivida nestes últimos 6 anos? Tenho certeza que não. O vazio ficará.

Agora falando sobre o final em si, eu gostei. Achei digno da qualidade desenvolvida no decorrer das temporadas e o destino dado aos personagens muito bonito. Chorei nas cenas em que eles descobriam quem realmente eram, especialmente na da Kate com a Claire mais o Charlie e na do Sawyer com a Juliet, além do Locke no hospital. A cena do diálogo do Jack com seu pai, então nem se fala. Juro que enquanto escrevo este paragrafo, estou arrepiado só de lembrar.

Me marcou também a recusa do Ben em entrar na igreja, certamente motivada pelo fato de sua filha ainda não ter recebido a revelação e estar intimamente ligada a ele naquele contexto. O gesto do Desmond em não forçar uma revelação ao Daniel Faraday, mesmo este dando indícios de que estaria preparado, deixando-o com a mãe que o matou na vida real, foi demais tamnbém. Outra, a frase do Desmond para o Hurley explicando que a Ana Lucia não iria com eles porque ainda não estava pronta, tem uma relação direta com a mensagem final.

O bacana é que a história pendeu para um desfecho de forte apelo religioso (notei que no vitral da igreja havia símbolos de diversas religiões), porém muito convincente. Acho que mesmo aqueles que não acreditam que exista alguma coisa depois da morte, no fundo torcem para que estejam errados e que no final, nós possamos nos deparar com um lugar para seguir em frente ou "move on", como bem disse o pai do Jack. A idéia de que o que pensávamos ser uma realidade paralela, significar na verdade uma espécie de purgatório, ou simplesmente uma lugar de transição para a luz me agradou bastante.

É óbvio que faltaram respostas. E eu confesso que até esperei que elas viessem durante a sexta temporada, porém acho que ficou claro que não seriam desvendados todos os mistérios na medida que a cada episódio, novos elementos iam sendo inseridos na trama. Penso que as principais questões foram abordadas, principalmente com relação ao Jacob.

Li uma entrevista dos produtores executivos onde eles disseram que o foco seria mais dar um destino para cada personagem do que a resolução de cada detalhe misterioso. Fez sentido.

Mas é claro que eu gostaria de saber pelo menos quatro coisas. Por quanto tempo mais o Hurley ficou na ilha ("foi um grande líder", disse o Ben)? Se o Desmond conseguiu sair e como foi. Se o avião que decolou da ilha ainda continha dinamite e explodiu no ar. E qual foi o destino do Richard (um dos meus personagens favoritos)?
Acho que há muito material para ser explorado e consequentemente muito dinheiro a ser ganho, caso os produtores desejem. Cabe fácil, mais de um filme longa-metragem para os cinemas, abordando e desenvolvendo lados não explicados.

Para finalizar, quero só reafirmar. Lost marcou minha vida de amante da cultura pop e ficará marcada para sempre como a melhor experiência que tive com programas de televisão em minha vida. Simplesmente insuperável.

Abaixo a última cena. Bela, belíssima. Pode chorar junto comigo... 

Sandro

quarta-feira, 26 de maio de 2010

COPIE CONFORME - Novamente Juliette Binoche


A 63º. Edição do festival de Cannes teve como sua grande estrela a atriz francesa Juliette Binoche, que além de vencer o prêmio de melhor interpretação feminina por seu papel em "Copie Conforme", do diretor Abbas Kiarostami, além de exibir seu lado político com a manifestação em relação a prisão do assistente de direção Jafar Panahi, no Irã (mas não vou aprofundar nesse tema).

O filme foi feito em Florença e tem produção franco-italiana, onde narra o encontro entre um escritor britânico, James (William Simell), e sua admiradora (Juliette Binoche). O autor está lançando o livro “Cópia Certificada”, cujo subtítulo é polêmico: “Esqueça o original e procure uma boa cópia”.

Andando pela cidade, o casal de amigos inicia uma discussão divagando se a cópia de uma obra tem o mesmo valor que o original, o comportamento de casais em uma relação amorosa e outros grandes temas. Em um determinado ponto, a fã começa um jogo interessante, agindo como se o escritor fosse seu marido, desafiando-o a lembrar memórias que ele não tem e discutindo a relação em profundidade.

Com certeza é um grande filme, o qual devemos conferir. Segue Trailer.


COPIE CONFORME - Novamente Juliette Binoche


A 63º. Edição do festival de Cannes teve como sua grande estrela a atriz francesa Juliette Binoche, que além de vencer o prêmio de melhor interpretação feminina por seu papel em "Copie Conforme", do diretor Abbas Kiarostami, além de exibir seu lado político com a manifestação em relação a prisão do assistente de direção Jafar Panahi, no Irã (mas não vou aprofundar nesse tema).

O filme foi feito em Florença e tem produção franco-italiana, onde narra o encontro entre um escritor britânico, James (William Simell), e sua admiradora (Juliette Binoche). O autor está lançando o livro “Cópia Certificada”, cujo subtítulo é polêmico: “Esqueça o original e procure uma boa cópia”.

Andando pela cidade, o casal de amigos inicia uma discussão divagando se a cópia de uma obra tem o mesmo valor que o original, o comportamento de casais em uma relação amorosa e outros grandes temas. Em um determinado ponto, a fã começa um jogo interessante, agindo como se o escritor fosse seu marido, desafiando-o a lembrar memórias que ele não tem e discutindo a relação em profundidade.

Com certeza é um grande filme, o qual devemos conferir. Segue Trailer.


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